sábado, 21 de novembro de 2009

[hotel atlântico]

Hotel Atlântico

Hotel Atlântico, 2009

Suzana Amaral


Esse Hotel Atlântico é um bom road movie. A cineasta bissexta Suzana Amaral aposta na velha e batida fórmula do gênero, mas aqui com um protagonista partindo do nada para lugar nenhum, em busca de sabe-se lá o quê. Nesse sentido, o tom enigmático que Amaral dá a seu filme acaba sendo um ponto a favor deste, mesmo que não se possa dizer que suas escolhas são efetivamente originais - e se existem mesmo ecos de David Lynch, como muitos vêm dizendo, em Hotel Atlântico, talvez eles estejam na estranheza dos personagens que cruzam o caminho do protagonista e dos acontecimentos vividos por este, assim como na vagueza da narrativa, onde muito pouco é explicado.

O maior acerto do filme está, entretanto, no seu ator principal: Júlio Andrade está excelente, apresentando um sujeito ao mesmo tempo ameaçador, em sua aura misteriosa e imprevisível, e frágil, vítima de uma série de pequenos desastres que vão, pouco a pouco, deixando marcas no seu corpo - a partir de um certo momento, marcas literais. É graças a sua presença magnética que um personagem que poderia facilmente soar como frio, distante, gerando indiferença por parte do espectador, acaba produzindo justamente o efeito contrário: é difícil não se preocupar com o destino daquele ator ao assistir-se a Hotel Atlântico. Andrade conta ainda com a ajuda de um elenco de coadjuvantes de alta qualidade, que vai de João Miguel (o melhor deles, em uma participação pequena mas comovente) à saudosa Helena Ignez, e que reforçam o estranhamento causado pelo filme, adotando posturas de imprevisibilidade que parecem poder levar a narrativa para qualquer lado. E esse me parece ser um outro ponto positivo desse trabalho menor de Amaral, mas que tem lá seu valor em tempos de criatividade tão escassa no nosso cinema.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

[à procura de eric]

À Procura de Eric
Looking for Eric, 2009
Ken Loach



Para quem está acostumado com o cinema politizado e sisudo de Ken Loach (meu caso), fica difícil acreditar que esse À Procura de Eric seja obra do mesmo sujeito responsável por filmes duros como Terra e Liberdade, Pão e Rosas e Ventos da Liberdade. A verdade é que, por mais que Loach realize trabalhos altamente relevantes e na maioria das vezes de grande qualidade, falta em sua cinematografia um certo frescor, que parece ter sido finalmente alcançado aqui. Frescor criado por uma história ingênua, mas extremamente honesta, por personagens simples e absurdamente adoráveis, e pelo inusitado e acertado uso de um elemento fantástico que acaba se revelando a força motriz do filme. Todas as vezes que o ex-jogador de futebol Eric Cantona surge em cena, À Procura de Eric se torna ainda melhor. Seus diálogos com o protagonista (o excepcional Steve Evets) são um achado, em sua simplicidade e lógica auto-ajuda, e a forma como Loach se utiliza de imagens de seus jogos cria momentos que beiram o sublime.

É bem verdade que, ao apostar em uma subtrama envolvendo um dos filhos do personagem de Evets, deixando de lado por um bom tempo as questões pessoais do protagonista e seus encontros com Cantona, Loach acaba comprometendo a força de seu filme. No entanto, é justamente essa subtrama que gera um dos momentos mais inspirados, ingênuos e empolgantes de À Procura de Eric, com um "exército" de Cantonas - ao mesmo tempo que provoca impacto, bem ao estilo do cinema de Loach, quando aborda a violência policial contra aquela família de trabalhadores. Assim, mesmo o que tinha tudo para dar errado, acaba gerando resultados positivos. À Procura de Eric acaba se revelando como uma experiência absolutamente adorável, envolvente e positiva (no sentido mais óbvio do termo, é um filme up mesmo). Tanto para cinéfilos como para fãs de futebol. Como me enquadro nos dois casos, adorei.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

[deixa ela entrar]

Deixa Ela Entrar

Lat den Rätte Komma In, 2008

Tomas Alfredson



Num momento em que toda uma geração parece estar sendo formada tendo como referência de história de vampiro a saga Crepúsculo (livros e filmes), é muito bom ver algo como esse Deixa Ela Entrar (queria poder dizer o mesmo para o sul-coreano Sede de Sangue, mas, infelizmente, a obra de Chan-Wook Park foi uma grande decepção). É impressionante como, ao tratar do envolvimento de uma vampira de 12 anos com um garoto da mesma idade (vividos por dois grandes jovens atores), o diretor Tomas Alfredson consegue fazer um filme mais adulto, mais violento, e mais sexualizado (algo essencial quando se tem esses seres em cena) do que a série de Stephenie Meyer. Alfredson impõe à Deixa Ela Entrar um clima pesado, melancólico, opressivo - bem sueco, na verdade - que delineia um tom trágico bastante propício a histórias de amor envolvendo um vampiro e um ser humano (Drácula, especialmente em sua maravilhosa versão para o cinema de Francis Ford Coppola, está aí para não me deixar mentir). E é isso que o filme é: uma belíssima e delicada história de amor. Não o amor emo de Crepúsculo, com adolescentes com hormônios em ebulição - mas estranhamente abstêmios - se envolvendo com vampiros góticos gente-boa que jogam baseball e não mordem ninguém. Mas sim um amor triste, dolorido, feito de silêncios e incompreensões, mas também de um enorme senso de dedicação mútua - algo que fica claro no epílogo de Deixa Ela Entrar. É um filme sobre a descoberta do amor, sobre a descoberta de como ele pode vir dos lugares mais inusitados, manifestando-se das formas mais inesperadas. E sobre como, a partir de um certo momento, essas diferenças passam a não ter a menor importância diante da força daquele sentimento, e a cumplicidade passa a reinar absoluta.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

[alguns filmes - outubro]


Desejo e Perigo
Se, Jie, 2007
Ang Lee


Intervenção Divina
Yadom Ilaheyya, 2002
Elia Suleiman


Mr. Vingança
Boksuneun Naui Geot / Sympathy for Mr. Vengeance, 2002
Chan-Wook Park


O Pântano
La Ciénaga, 2000
Lucrecia Martel


O Desafio
O Desafio, 1965
Paulo Cézar Saraceni


O Grupo Baader Meinhof
Der Baader Meinhof Komplex, 2008
Uli Edel


Memórias de um Assassino
Salinui Chueok / Memories of Murder, 2003
Bong Joon-Ho


Medos Privados em Lugares Públicos
Coeurs, 2006
Alain Resnais



Curtas:

La Jetée
La Jetée, 1962
Chris Marker

Carta a Freddy Buache
Lettre a Freddy Buache, 1982
Jean-Luc Godard

Cindy, the Doll is Mine
Cindy, the Doll is Mine, 2005
Bertrand Bonello

Elephant
Elephant, 1989
Alan Clarke

Noite e Neblina
Nuit et Bouillard, 1955
Alain Resnais

[anselmo duarte]

Morreu no último sábado (07/11) o ator e diretor Anselmo Duarte. Conheço pouco de sua carreira, mas o cara dirigiu o único filme brasileiro a ganhar a Palma de Ouro em Cannes, o belo O Pagador de Promessas, e entregou uma das interpretações mais impressionantes, viscerais e odiosas que o nosso cinema já viu, na obra-prima de Luiz Sérgio Person O Caso dos Irmãos Naves. Já é o suficiente para merecer aqui minha sincera, e atrasada, homenagem.

Anselmo Duarte (1920 - 2009)

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

[besouro]

Besouro
Besouro, 2009
João Daniel Tikhomiroff


Besouro é um filme ruim. E, ao contrário do que muita gente poderia pensar, não é por causa de suas cenas de luta à lá Zhang Yimou - na verdade, estas, filmadas com competência por João Daniel Tikhomiroff, funcionam muito bem, e se revelam como a melhor coisa da obra. A questão é: até que ponto é válido para o cinema brasileiro dedicar-se a trabalhos destinados a publicos específicos, e mais, a públicos que professam determinadas crenças religiosas? Estendo aqui, então, o mesmo questionamento que deve ser feito sobre a validade de filmes como os do Padre Marcelo Rossi, ou o recente "cinema espírita" (preparem-se, vem aí o filme de Daniel Filho sobre Chico Xavier...), para a valorização do candomblé feita por Besouro. A priori, sou contrário a esse tipo de filme, mas parece-me inegável que, no caso da referida religião afro-brasileira, as coisas talvez possam mudar um pouco de figura: afinal, não deixa de ser prazeroso ver uma crença vítima de tantos preconceitos em toda a nossa história, e ainda hoje tão marginalizada (conta-se nos dedos as referências positivas feitas ao candomblé - e outras religiões afins - nos meios de comunicação brasileiros), ganhar espaço nas salas de cinema. Nesse sentido, essa uma transgressão levada à cabo por Besouro e que mereceria, à primeira vista, aplausos.
No entanto, e chego aqui ao segundo questionamento que me aflige, por que não ir além com esse comportamento transgressor? Por que contar uma história notadamente marginal, num formato absurdamente tradicional, optando por uma série de lugares-comuns (herói orgulhoso que aprenderá a controlar sua força para finalmente cumprir seu destino... heróico; mestre ancião cheio de sabedoria que insiste em aparecer, quase como um Obi-Wan Kenobi do recôncavo baiano, para esse herói; vilões caricatos, malvados até o último fio de cabelo; amigo enciumado que trai o herói; e por aí vai...) que irritam profundamente? Assim, um tema transgressor é sufocado por um formato extremamente tradicional, e acaba por se tornar, ele também, tradicional.

sábado, 31 de outubro de 2009

[primero plano 2009 - festival de cinema de juiz de fora]

Adoro o Primeiro Plano - Festival de Cinema de Juiz de Fora, e todo ano acompanho, na medida do possível, as mostras que o compõem - consequentemente, vi o festival crescer nesses últimos anos, ganhando porte internacional, e exibindo cada vez mais filmes de grande qualidade. Infelizmente, nesse ano não consegui participar efetivamente do evento, assistindo a apenas 1 longa e 7 curtas, e, em muito, isso deveu-se a uma seleção de filmes (especialmente longas) notadamente inferior às dos anos anteriores (mas motivos pessoais acabaram também por atrapalhar meus planos em relação a alguns trabalhos). Ainda assim, fica aqui o registro do que consegui assistir:


No Meu Lugar
No Meu Lugar, 2009
Eduardo Valente


Em muitos momentos de sua narrativa, esse No Meu Lugar (estreia em longa-metragens de Eduardo Valente, premiado em Cannes em 2002 com o curta Um Sol Alaranjado) parece referenciar-se – para o bem e para o mal – no cinema da (ex) dupla Alejandro González Iñarritu e Guillermo Arriaga. Não falo só do olhar fragmentado sobre a trajetórias de seus personagens, mas também do clima melancólico, pessimista ao extremo, que adota na construção destas trajetórias, e no uso da trilha sonora, com escassos, mas marcantes (e tristes), acordes. A utilização dessa atmosfera, aliás, acaba funcionando bem, sendo um dos êxitos de No Meu Lugar: a falta de perspectivas de seus personagens, especialmente da dupla de protagonistas, vividos pelos ótimos Márcio Vito e Raphael Sil, incomoda, angustia, e, ao mesmo tempo, contribui para o envolvimento do espectador com aquela história - parece que, no fundo, temos alguma esperança de redenção para aqueles dois, ainda que saibamos (ou melhor, desconfiemos) o destino de ao menos um deles. A condução de algumas pequenas belas cenas também merece aplausos: o duro diálogo entre o personagem de Vito e sua filha, na praia; o menino desenhando na parede, sobre as marcas da tragédia ocorrida na casa onde agora mora; a delicada conversa entre o personagem de Sil e seu amigo traficante; e aquela que entendo como a mais bela de todas, a primeira sequência de No Meu Lugar, com o policial vivido por Vito acompanhando com o olhar o trajeto que faz o carro da polícia onde se encontra – encanta a riqueza e tristeza daquele olhar, que revela muito sobre o cotidiano daquele homem, ainda que seu dia-a-dia como policial não seja explorado pelo filme.
Valente, entretanto, comete alguns deslizes. Desenvolve mau seus coadjuvantes (fica evidente a má direção de alguns atores, em contraste com a qualidade do trabalho de Vito e Sil), e entrega um filme desequilibrado, irregular. Chama a atenção particularmente como um dos núcleos da narrativa do longa, aquele centrado no casal vivido por Dedina Bernadelli e Cesar Augusto e seus filhos, se revela desinteressante em comparação com os outros dois, parecendo mesmo deslocado, parte de outro filme. Valente ainda investe demasiadamente na tentativa de construção de um "mistério", escondendo até o final o resultado daquele quebra-cabeças. O problema é que não é necessário grande esforço para perceber logo os caminhos que serão tomados pelos personagens de No Meu Lugar – e a obviedade da cena final acaba sendo, nesse sentido, um tanto frustrante. O diretor aproxima-se então, perigosamente a meu ver, do cinema de Arriaga pós-briga com Iñarritu, ou seja, de filmes medíocres como O Búfalo da Noite e principalmente o recente The Burning Plain (estreia do roteirista/escritor mexicano na direção de longas). Ser colocado ao lado desse Arriaga não é lá muito bom. Nesse caso, vale a velha máxima: antes só do que mal acompanhado.


Curtas:

A Vermelha Luz do Bandido
A Vermelha Luz do Bandido, 2009
Pedro Jorge

Elétrico Jardim da Escuridão
Elétrico Jardim da Escuridão, 2009
Mariana Campos

Minha Tia, Meu Primo
Minha Tia, Meu Primo, 2008
Douglas Soares

Sobe, Sofia
Sobe, Sofia, 2009
André Mielnik

Ana Beatriz
Ana Beatriz, 2008
Clarissa Cardoso

Sobre um dia qualquer
Sobre um dia qualquer, 2008
Leonardo Remor

Quarto de Espera
Quarto de Espera, 2009
Bruno Carboni e Davi Pretto